Lealdade e fidelidade

Certo dia um amigo me disse que lealdade se refere mais a pensamentos e valores e que a fidelidade se refere mais a atitudes e objetos. Por exemplo, você pode ser leal a uma ideia e pode ser fiel no perfeito cumprimento desta ideia.

Para muitas pessoas e até mesmo em dicionários é difícil separar o significado desses dois termos. Contudo, para mim, com o passar do tempo, essas palavras passaram a significar coisas bem distintas.

A fidelidade é mais comum e mais simples, apesar de muitos falharem na simplicidade. Ser fiel é cumprir os compromissos assumidos. É não distorcer. É ser fidedigno quando citar algo ou alguém. É ser preciso. É ter palavra.

A lealdade, no entanto, é algo muito mais complexo e intrínseco. É algo que não se pode ensinar, pois quem é leal já nasce com essa virtude. Ser leal é ser digno, honesto e sincero com os outros e consigo mesmo. É agir com honra. É ser ético. É defender com sinceridade, mesmo na ausência da pessoa envolvida. É ser nobre em suas atitudes e até mesmo em seus pensamentos.

Com relação aos relacionamentos afetivos ouvimos falar constantemente em fidelidade e raramente em lealdade. Há uma distorção de valores muito visível. Geralmente fala-se da fidelidade simplesmente relacionada ao cumprimento do acordo de monogamia. Mas esse conceito é muito mais abrangente. A infidelidade está presente em todo descumprimento de qualquer acordo feito entre o casal. Como se cada acordo fosse uma cláusula de um contrato e o descumprimento de qualquer cláusula seria um ato infiel. No entanto, se o casal acordar que são permitidas relações extra-conjugais, nesse caso, a tão indesejada “traição” não seria considerada infidelidade.

A lealdade pouco é mencionada com relação aos relacionamentos afetivos e é algo mais difícil de alcançar. Para ser leal, é preciso, por princípio, ser fiel. No entanto, não se cumpre os acordos simplesmente por um compromisso assumido, mas sim pela importância de ser leal àquela pessoa que você considera merecedora da sua lealdade. Você pode ser fiel a contragosto, apenas pelo cumprimento do acordo e para ficar com a “consciência tranquila”, mas é impossível ser leal se essa qualidade não nasceu dentro de você. Para ser fiel é preciso apenas disciplina, por outro lado,  a lealdade nasce de um sentimento de admiração e amor, e é baseada em uma relação de amizade, reciprocidade e cumplicidade.

Poderia perfeitamente ser feliz apenas com a garantia da fidelidade, mas seria uma vida com menos brilho, com aquela incerteza constante de que a qualquer momento a “máscara” pode cair, e então descobriria com tristeza que aquilo que pensei que era amor, nunca existiu. Às juras de fidelidade eterna, prefiro a lealdade sincera, sem promessas, sem hipocrisia. Que seja apenas verdadeiro, e assim o for, certamente será para toda a vida.

Separação

Separação (Vinicius de Moraes)



Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Para entender Clarice …

Inquietude

Uma inquietude toma conta de mim. Eu não posso dormir. Uma falta de qualquer coisa, uma ausência calada, um silêncio frustrante em meus ouvidos. Um grito interno que urge para que eu fique acordada. Que eu acorde mais. Que eu enxergue mais. Que eu abra os olhos. Que eu olhe para dentro de mim.

É sempre da noite mais tácita e quieta que nasce a inquietude. Ela vem aos poucos e cresce rápido e irrompe. E eu vejo. O dia agitado esconde toda a verdade. Esconde a realidade distante do invisível.

Quero ver. Quero saber o que se passa lá dentro. Procuro em desespero algo que não sei o que é. Não sei o que quero encontrar. Não sei onde procurar. Lá dentro é tudo grande e confuso como um labirinto. Eu me perco. O fio de Ariadne não vai me ajudar a fugir do ser estranho que habita em mim. Já é tarde demais. Preciso enfrentá-lo.

Preciso mergulhar mais fundo, mas tenho medo. Nunca fui tão para dentro. Tenho medo de não entender. Lá dentro fala-se outras línguas. Várias línguas incompreensíveis e inaudíveis. Não sei decifrá-las. Ninguém sabe.

Fecho os olhos para enxergar mais. Tento parar de pensar. O que procuro não está em meus pensamentos. Quero sentir. Quero apenas sentir. Algo me aperta forte o peito e na garganta sinto um pranto silencioso e aprisionado que ameaça lavar minha face indiferente. É hora de ir para a cama. Finalmente o sono cansado veio me salvar de mim mesma.

La poesía

Y FUE a esa edad… Llegó la poesía
a buscarme. No sé, no sé de dónde
salió, de invierno o río.
No sé cómo ni cuándo,
no, no eran voces, no eran
palabras, ni silencio,
pero desde una calle me llamaba,
desde las ramas de la noche,
de pronto entre los otros,
entre fuegos violentos
o regresando solo,
allí estaba sin rostro
y me tocaba.

Yo no sabía qué decir, mi boca
no sabía
nombrar,
mis ojos eran ciegos,
y algo golpeaba en mi alma,
fiebre o alas perdidas,
y me fui haciendo solo,
descifrando
aquella quemadura,
y escribí la primera línea vaga,
vaga, sin cuerpo, pura
tontería,
pura sabiduría
del que no sabe nada,
y vi de pronto
el cielo
desgranado
y abierto,
planetas,
plantaciones palpitantes,
la sombra perforada,
acribillada
por flechas, fuego y flores,
la noche arrolladora, el universo.

Y yo, mínimo ser,
ebrio del gran vacío
constelado,
a semejanza, a imagen
del misterio,
me sentí parte pura
del abismo,
rodé con las estrellas,
mi corazón se desató en el viento.

Pablo Neruda