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Missa do Galo de Machado de Assis

Missa do Galo

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

— Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

— Ainda não foi? perguntou ela.

— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.

— Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

— Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.

— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.

— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

— Justamente: é muito bonito.

— Gosta de romances?

— Gosto.

— Já leu a Moreninha?

— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

“Talvez esteja aborrecida”, pensei eu.

E logo alto:

— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu…

— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

— Já tenho feito isso.

— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

— Que velha o que, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio…

Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.

A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

— Mais baixo! mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

— Eu também sou assim.

— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.

— Foi o que lhe aconteceu hoje.

—  Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela rnissa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

— Mais baixo, mais baixo…

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava “Cleópatra”; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

— São bonitos, disse eu.

— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo! missa do galo!”

— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

— Já serão horas? perguntei.

— Naturalmente

— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.

— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

A diferença entre o homem e a mulher

Ela manda uma mensagem de texto pelo celular:

- Amorzinho lindo, eu te amo muito!

Após alguns minutos ela ouve o som característico que é emitido pelo celular quando chega uma mensagem. Pega o aparelho com uma curiosidade ansiosa para ver a resposta do seu amor, imaginando as palavras carinhosas que ele pode ter escrito. Na resposta constava simplesmente:

- Idem

Ela fica um pouco decepcionada, mas entende que ele deve estar ocupado no momento e decide não importuná-lo com mais mensagens por hora.

Um outro dia, à noite, esperando o namorado chegar em sua casa, ela decide enviar uma mensagem para provocá-lo:

- Amor, quero transar bem gostoso quando você chegar.

Ele responde prontamente:

- Roger

Ela fica um pouco confusa: “Roger? O que ele quer dizer com isso? Será que mandei mensagem para a pessoa errada?” Confere então que a mensagem foi enviada corretamente. “Será que ele está se referindo ao amigo dele que se chama Roger? Mas não faz sentido.” Após todos os questionamentos que duraram alguns segundos ela envia a mensagem:

- Roger???

Ele responde:

- Roger significa ok na linguagem de rádio do exército. Eu sabia que você não ia entender mas escrevi assim mesmo. Hehehe

Ainda chocada com o Roger ela vai para o banho enquanto espera seu amado chegar, decidida a esquecer essa bobagem das mensagens, e dizendo a si mesma: “tudo bem, ele tem muitas outras qualidades…”

Um conversa sobre amor incondicional

Um dia, meu amor me perguntou:

- Amor, você me amaria se eu fosse pobre?

- Não.

- Como assim, amor?

- Amor. Se você fosse pobre, provavelmente não teríamos nos conhecido.

- Você tem preconceito?

- Não é preconceito pela falta de dinheiro. Eu não sou rica, nem a minha família, mas temos bastante cultura. Se você não tivesse muito dinheiro, mas fosse viajado e com boa cultura, tudo bem. Acho que não amaria alguém com baixo nível cultural. Cultura é fundamental.

- Queria apenas saber se você me amaria de qualquer forma.

- Eu não acredito em amor incondicional…

- Não acredita? Você acha mesmo que não é possível?

- Racionalize a palavra “incondicional”: você amaria alguém em qualquer condição? Continuaria amando alguém que mentiu para você ou que lhe roubou alguma coisa? Ninguém é capaz de continuar amando assim. Geralmente deixamos de amar por muito menos. As pessoas dizem que amam incondicionalmente, mas falam sem pensar. O amor é muito condicional.

- Eu não sei. Acredito que é possível sim. Acho que eu não conseguiria, mas acredito que esse amor existe. Olha só este texto que encontrei, da Madre Teresa.

E começou a ler na tela do seu laptop:

“Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.

Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.

Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.

Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco as pessoas podem enganá-lo.

Seja honesto assim mesmo.

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.

Construa assim mesmo…”

E acrescentou:

- Acho que Madre Teresa tinha uma visão ainda mais ampla do que é ser incondicional. Não apenas no amor, mas no comportamento em geral.

- Acho que sim. Ela tinha seus princípios e os seguia independente das condições e das reações das pessoas.

- Ela possuía amor incondicional.

- A Madre Teresa e ninguém mais.

E rimos juntos.

Continuei:

- Acho que amor incondicional é impossível, mas podemos tentar nos aproximar disso. Por exemplo, podemos amar as pessoas mesmo com seus defeitos. Em todas as relações as pessoas tentam mudar as outras. Queremos que as pessoas sejam perfeitas de acordo com o que desejamos, mas seres humanos perfeitos não existem. Quando percebemos os defeitos, deixamos de amar. Se aprendermos a amar mesmo com os defeitos, se esses defeitos não nos violentarem, estaremos próximos do amor “incondicional”.

- Ah amor. Você me ama com meus defeitos?

- Eu te amo. Incondicionalmente.

- Incondicionalmente?

- Sim.

- Mas se você não acredita em amor incondicional… É um contrassenso.

- É, eu sei.

Ele sorriu, aproximou-se de mim, disse que me amava e me beijou apaixonado. Eu respondi:

- Eu te amo meu amor.

Acaso

Algumas pessoas não acreditam no acaso. Dizem que é destino… bom… eu não sou uma dessas pessoas. Acredito mesmo que muitas coisas acontecem simplesmente por acaso e que alguns segundos a mais ou a menos que você demora para sair de casa podem mudar completamente o que vai acontecer no seu dia… por puro acaso.

Estou falando disso porque um dia, casualmente, conheci uma pessoa de forma muito peculiar.

Era sexta-feira, cheguei em casa da academia em torno de oito e meia da noite. Estava  meio cansada, mas precisava passear um pouco com o meu cachorro  que fica muito tempo em casa sozinho. Lembrei também que precisava comprar um presente de aniversário para um querido amigo que fazia anos no dia seguinte. Pensei então: vou à livraria a pé. Dessa forma eu passeio um pouco com o meu pequeno peludo (ele adora ir à livraria ganhar carinho de todas as pessoas queridíssimas que andam por lá) e ainda aproveito para comprar o presente. Perfeito!

Mesmo cansada lá fui eu. Nem sequer troquei de roupa, fui com a roupa de academia mesmo. Até porque como iria caminhar um pouco, a roupa que estava usando parecia conveniente.

Já perto da entrada da livraria, passo por um homem que estava de saída, com as duas mãos ocupadas com grandes sacolas cheias de livros. Ele logo me chamou a atenção: não é todo dia que se vê um homem extremamente atraente, carregado de livros, passando na rua e olhando para você. Curiosa, após alguns segundos eu olhei sobre o ombro para trás. Ele fez exatamente o mesmo movimento e nossos olhares se cruzaram… Desviei então o olhar envergonhada e continuei a caminhar em direção à entrada da livraria. Após alguns segundos não resisti… dei mais uma olhadinha rápida para trás e ele, o homem lindo, também estava olhando novamente. Ele já se encontrava no outro lado da rua, mas percebi que ele começou a retornar. Fiquei então um pouco nervosa: “E agora? O que faço? Eu não conheço essa pessoa!” Pensei: “Vou entrar logo sem olhar para trás… ou será que dou mais uma última olhadinha…” e… lá estava ele, logo atrás de mim. Dei um sorriso sem jeito e disse oi. Ele era alto, lindo, com cara de trinta e tantos anos, com barba por fazer, cabelos na altura dos ombros um pouco bagunçados, mas nem por isso tinha ar de desleixo, muito pelo contrário, passava um ar de excentricidade…

Ele me abordou como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se fizesse isso todos os dias, e de cara perguntou: “Como é seu nome?” Eu respondi e em seguida apresentei meu companheiro de quatro patas. Continuei: “E você? Mora por aqui?” Ele respondeu: “Moro na Alemanha, mas estou hospedado na casa da minha irmã que mora aqui perto.” Trocamos mais duas ou três palavras que não recordo e ele então perguntou: “O que você vai fazer hoje?” Eu respondi: “Vou ficar em casa, talvez ler um livro.” Ele então disse: “Me passa seu telefone para eu te ligar e então fazemos alguma coisa.” E de novo eu pensei: “E agora? Passo meu telefone para esse cara que não conheço? Mas se eu não passar talvez nunca mais o veja… vou arriscar… vou passar!” Ele então tirou seu telefone do bolso, digitou meu número e ligou na hora mesmo para garantir que estava correto. Ainda não sabia o nome dele: “E o seu nome?” Ele respondeu: “Renato”. Nos despedimos com um aceno de mão e então entrei na livraria.

Que loucura isso foi para mim! Talvez para muitas pessoas isso seja bem normal. Para mim não é! Eu só saio com amigos que já conheço há anos ou, no máximo, com amigos de amigos. Eu estava prestes a sair com uma pessoa que acabei de conhecer!

Entrei na livraria e fiquei pensando em inventar alguma desculpa… ou simplesmente não atender o telefone… afinal, estava mesmo cansada para fazer qualquer coisa mas, quando ele ligou em poucos minutos, eu não resisti. Atendi o telefone e combinamos de nos encontrar dentro de uma hora e meia.

Comprei então o presente do meu amigo e voltei para casa. Tomei meu banho enquanto chegava o sanduíche que pedi na padaria que fica na esquina.

No horário combinado lá estava ele, vestindo uma calça jeans meio surrada, uma camisa clara com a manga dobrada até um pouco abaixo dos cotovelos e sandálias estilo havaianas! Sandálias, acredita? Excêntrico mesmo. Ele me cumprimentou com muita descontração e abriu a porta do seu carro para mim. Adoro cavalheirismo! Em retribuição também abri a porta do carro pelo lado de dentro para ele entrar.

Ele perguntou em que lugar eu gostaria de ir, mas o lugar que sugeri estava super lotado. Encontrar algum lugar menos cheio em uma noite de sexta-feira é uma tarefa difícil. Acabamos parando em um bistrô muito charmoso ali próximo. Eu pedi um suco. Logo ele descobriu que não sou adepta ao álcool e muito educado pediu apenas um suco também. Eu não me importaria se ele bebesse uma taça de vinho, mas logo percebi que este meu novo amigo era muito bom em criar afinidades.

Começamos a conversar como quaisquer duas pessoas que não se conhecem: fazendo perguntas. Mas diferente das perguntas que geralmente são feitas nessas ocasiões, as que ele me fazia eram mais instigantes. Ele não perguntou com o que eu trabalhava, nem a minha idade, nem o meu hobby predileto… No lugar disso perguntou em que eu acreditava, que importância eu dava ao corpo físico, qual a minha definição de amor… Depois aprofundávamos o assunto até transformar nossa conversa em algo profundo e com muita intimidade. Apesar de mal conhecê-lo, acabei cedendo aos seus encantos e passamos horas a conversar despretensiosamente.

Sobre muitos outros assuntos conversamos… quase nada sobre trabalho, um pouco sobre viagens, cidades e países interessantes, sobre livros, cinema, teatro, família, relacionamentos, amor… Ele falava sobre todos os assuntos com muita paixão e descontração. Em poucas horas já estávamos segurando nossas mãos e nos olhando nos olhos como se nos conhecêssemos há muito tempo.

Logo no início de nossa conversa eu mencionei que amava literatura e gostaria de escrever livros. Meu amigo então me disse que era escritor! Imagine a minha surpresa! Melhor impossível… Ele já tinha um livro publicado e estava escrevendo outro em coautoria com uma amiga.

Em alguns momentos eu questionei: Será que este homem existe mesmo? Não será tudo uma encenação? É verdade o que ele diz sobre todas essas coisas? Essa sua visão linda do mundo… não pode ser verdade. Mas logo deixei de questionar. Os questionamentos bloqueiam a vivência do momento.

Tive então uma noite linda, com um homem lindo, com palavras lindas em lugares lindos. Combinamos de nos ver no dia seguinte e ele me deixou em casa em torno de três horas da manhã.

Quando cheguei em casa, curiosa, fui pesquisar na internet sobre o livro que ele havia lançado há pouco mais de um ano. Imagine a minha surpresa quando li que o personagem principal do livro era um homem galanteador, que era de São Paulo mas morava no mundo afora e que sua maior paixão era conquistar mulheres que abordava em locais públicos a qualquer momento. Usava diversos artifícios para conquistá-las, compartilhando de suas ideias, demonstrando ser um homem com muita cultura, erudição e diferente da maioria. Um homem que desejava algo intenso, mas passageiro. Era a descrição dele mesmo!

Eu ri comigo mesma. Estaria ele interpretando o personagem de seu próprio livro? Ou melhor, o personagem de seu livro seria ele mesmo?

Quem sabe a nossa história possa virar mais um conto interessante para uma nova edição de seu livro. Quem sabe eu também possa virar uma personagem do meu futuro livro. Uma pessoa mais espontânea e com menos receios. Não sei não… talvez eu pare por aqui.

O anjo que caiu do céu

Um anjo caiu do céu em cima de mim!

Levei um tombo, mas não me machuquei, pois ele usou suas asas para me proteger e depois ajudou-me a levantar.

Exaltada, questionei: _ que queres tu caindo em cima de mim?

Mas o anjo sorriu… falou palavras doces e acariciou minha face como que a desculpar-se.

Seu sorriso abrandou-me, fazendo minha raiva passar. Sua voz aveludada ecoou em minha cabeça, apesar de não lembrar o que ele disse… O toque de sua mão tinha a textura suave das plumas.

Confusa, pensei: _ quem é este que não conheço e perturba os meus sentidos?

Mergulhei por alguns instantes no mar esmeralda dos seus olhos, procurando entender. Mas quando o anjo retribuiu o olhar, perdi o equilíbrio e quase caí novamente.

Fiz uma careta para disfarçar, e o anjo, que  parece saber ler meus pensamentos, compreendeu… retribuiu a careta, abraçou-me com suas asas cor de bruma e nessa noite nenhuma palavra mais precisou ser dita.

(texto escrito em julho de 2007)