Algumas pessoas não acreditam no acaso. Dizem que é destino… bom… eu não sou uma dessas pessoas. Acredito mesmo que muitas coisas acontecem simplesmente por acaso e que alguns segundos a mais que você demora para sair de casa podem mudar completamente o que vai acontecer no seu dia… por puro acaso.
Estou falando isso porque um dia desses, casualmente, conheci uma pessoa de forma muito peculiar.
Era sexta-feira, cheguei em casa da academia em torno de oito e meia da noite. Estava meio cansada, mas precisava passear um pouco com o meu cachorro que fica muito tempo em casa sozinho. Lembrei também que precisava comprar um presente de aniversário para um querido amigo que fazia anos no dia seguinte. Pensei então: vou à Livraria Cultura a pé. Dessa forma eu passeio um pouco com o meu pequeno peludo (ele adora ir à livraria ganhar carinho de todas as pessoas queridíssimas que andam por lá) e ainda aproveito para comprar o presente. Perfeito!
Mesmo cansada lá fui eu. Nem sequer troquei de roupa. Fui com a roupa de academia mesmo… até porque como iria caminhar um pouco, a roupa que estava usando parecia conveniente.
Ao chegar na livraria, passo por um homem que estava de saída carregado de livros. Ele logo me chamou a atenção: não é todo dia que se vê um homem lindo que gosta de livros e passa na rua olhando para você. Curiosa, após alguns segundos eu olhei sobre o ombro para trás. Ele fez exatamente o mesmo movimento e nossos olhares se cruzaram… Desviei então o olhar envergonhada e continuei a caminhar em direção à entrada da livraria. Após alguns segundos não resisti… dei mais uma olhadinha rápida para trás e ele, o homem lindo, também estava olhando novamente. Ele já se encontrava no outro lado da rua, mas percebi que ele começou a retornar. Fiquei então um pouco nervosa: “E agora? O que faço? Eu não conheço esse cara!” Pensei: “Vou entrar logo na Cultura sem olhar para trás… ou será que dou mais uma última olhadinha…” e… lá estava ele, logo atrás de mim. Dei um sorriso sem jeito e disse oi. Ele era alto, lindo, com cara de trinta e tantos anos, com barba por fazer, cabelos na altura dos ombros um pouco bagunçados, mas nem por isso tinha ar de desleixo, muito pelo contrário, passava um ar de excentricidade… e eu adoro um pouquinho de excentricidade.
Ele me abordou como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se fizesse isso todos os dias, e de cara perguntou: “Como é seu nome?” Eu respondi: “Vivi, hum.. quer dizer, Virginia… e esse é o Wilson” – apresentei meu companheiro de quatro patas. “E você? Mora por aqui?” Ele respondeu: “Moro na Alemanha, mas estou hospedado na casa da minha irmã que mora no Paraíso.” Disse-me também que conhecia bem o bairro, pois já havia morado muitos anos nos Jardins, na rua Haddock Lobo. Trocamos mais duas ou três palavras que não recordo e ele então perguntou: “O que você vai fazer hoje?” Eu respondi: “Vou ficar em casa, talvez ler um livro.” Ele então disse: “Me passa seu telefone para eu te ligar e então fazemos alguma coisa.” E de novo eu pensei: “E agora? Passo meu telefone para esse cara que não conheço? Mas se eu não passar talvez nunca mais o veja… vou arriscar… vou passar!” Ele então tirou seu blackberry do bolso, digitou meu telefone e ligou na hora mesmo para conferir se era o número correto. Ainda não sabia o nome dele: “E o seu nome?” Ele respondeu: “R…”. Nos despedimos com um aceno de mão e então entrei na livraria.
Que loucura isso foi para mim! Talvez para muitas pessoas isso seja bem normal. Para mim não é! Eu só saio com amigos que já conheço há anos ou, no máximo, com amigos de amigos. Eu estava prestes a sair com um cara que acabei de conhecer!
Entrei na Cultura e fiquei pensando em inventar alguma desculpa… ou simplesmente não atender o telefone… afinal, estava mesmo cansada para fazer qualquer coisa mas, quando ele ligou em poucos minutos, eu não resisti. Atendi o telefone e combinamos de nos encontrar dentro de uma hora e meia.
Comprei então o presente do meu amigo e voltei para casa. Tomei meu banho enquanto chegava o sanduíche que pedi na padaria que fica ao lado de casa.
No horário combinado lá estava ele, vestindo uma calça jeans meio surrada, uma camisa clara com a manga dobrada até um pouco abaixo dos cotovelos e sandálias estilo havaianas! Sandálias, acredita? Excêntrico mesmo. Ele me cumprimentou com muita descontração e abriu a porta do seu Land Rover para mim. Adoro cavalheirismo! Em retribuição também abri a porta do carro pelo lado de dentro para ele entrar.
Ele perguntou em que lugar eu gostaria de ir, mas o lugar que sugeri estava super lotado. Encontrar algum lugar menos cheio em uma noite de sexta-feira em São Paulo é uma tarefa difícil. Acabamos parando em um bar/restaurante muito charmoso no bairro Higienópolis que não recordo o nome. Ambos pedimos um suco. Logo ele descobriu que não sou adepta ao álcool e muito educado pediu apenas um suco também. Eu não me importaria se ele bebesse uma taça de vinho, mas logo percebi que este meu novo amigo era muito bom em “rapport”, ou seja, em criar afinidades.
Começamos a conversar como qualquer duas pessoas que não se conhecem: fazendo perguntas. Mas diferente das perguntas que geralmente são feitas nessas ocasiões, as que ele me fazia eram mais instigantes. Ele não perguntou com o que eu trabalhava, nem a minha idade, nem o meu hobby predileto… No lugar disso perguntou em que eu acreditava, que importância eu dava ao corpo físico, qual a minha definição de amor… Depois aprofundava o assunto até transformar nossa conversa em algo profundo e com muita intimidade.
Apesar de mal conhecê-lo, acabei cedendo aos seus encantos e passamos horas a conversar despretensiosamente.
Sobre muitos outros assuntos conversamos… quase nada sobre trabalho, um pouco sobre viagens, cidades e países interessantes, sobre livros, cinema, teatro, família, relacionamentos, amor… Ele falava sobre todos os assuntos com muita paixão e descontração. Em poucas horas já estávamos segurando nossas mãos e nos olhando nos olhos como se nos conhecêssemos há muito tempo.
Logo no início de nossa conversa eu mencionei que estava estudando letras, que amava literatura e gostaria de escrever livros. Meu amigo então me disse que era escritor! Imagine a minha surpresa! Melhor impossível… Ele já tem um livro publicado e está escrevendo outro em coautoria com uma amiga de São Paulo, por isso veio da Alemanha passar alguns dias por aqui.
Em alguns momentos eu questionei: Será que este homem existe mesmo? Ou será tudo uma interpretação? É verdade o que ele diz sobre todas essas coisas? Essa sua visão linda do mundo… não pode ser verdade. Mas logo deixei de questionar. Os questionamentos bloqueiam a vivência do momento.
Tive então uma noite linda, com um homem lindo, com palavras lindas em lugares lindos. Combinamos de nos ver no dia seguinte e ele me deixou em casa em torno de três horas da manhã.
Quando cheguei em casa, curiosa, fui pesquisar na internet sobre o livro que disse que havia lançado há pouco mais de um ano. Imagine a minha surpresa quando li que o personagem principal do livro era um homem galanteador, que era de São Paulo mas morava no mundo afora e que sua maior paixão era conquistar mulheres que abordava em locais públicos a qualquer momento. Usava diversos artifícios para conquistá-las, compartilhando de suas ideias, demonstrando ser um homem com muita cultura, erudição e diferente da maioria. Um homem que desejava algo intenso, mas passageiro. Era a descrição dele mesmo!
Eu ri comigo mesma. Estaria ele interpretando o personagem de seu próprio livro? Ou melhor, o personagem de seu livro seria ele mesmo?
Quem sabe a nossa história possa virar mais um conto interessante para uma nova edição de seu livro. Quem sabe eu também possa virar uma personagem do meu futuro livro. Uma pessoa mais espontânea e com menos receios. Não sei não… talvez eu pare por aqui.