Archive for the ‘De tudo um pouco’ Category

O voo da casca de banana

O bairro Jardim Europa é um dos mais belos da cidade. Um labirinto de pequenas ruas, ornadas por árvores belíssimas, com grandes casas dos sonhos e com um paisagismo excepcional, que podemos notar pelas plantas muito bem cuidadas que espalham-se pelas calçadas e muros. Se olharmos uma foto aérea do bairro veremos o motivo pelo qual ele chama-se Jardins. A concentração de árvores no local se destoa de todo o resto, parecendo mesmo um pequeno jardim da nossa grande casa que é São Paulo.

Passo diariamente pelas ruas do Jardim Europa que fica no caminho alternativo que escolhi para fugir do trânsito e poluição da Av. Rebouças, até chegar à USP, onde estudo literatura todas as manhãs.

Certa manhã de quinta-feira, ensolarada e levemente fria, indicando o então  início do outono na nossa cidade, estava eu fazendo meu caminho habitual, prestando atenção ao carro que estava em minha frente e seguindo-o sem pressa pelas curvas do bairro. Em um determinado momento o mesmo carro reduz um pouco a velocidade e vejo uma casca de banana voar pela janela e cair em uma caçamba de entulhos que estava encostada na calçada diante de uma casa. Eu me surpreendi! Aquela cena teria dado uma foto genial! A mão que estava por trás daquele gesto não se mostrou. A casca de banana pareceu atirar-se pela janela em “câmera lenta” em um voo curto e definitivo, como a única aventura vivida em toda a sua vida tão curta, pousando-se voluntariamente sobre os entulhos.

O carro continuou a andar em sua velocidade normal e eu ainda fui atrás dele por mais algum tempo. Depois seguimos caminhos diferentes. E a casca de banana ficou para trás, em sua última morada.

Além de me admirar com a casca de banana em seu voo, também admirei a preocupação do motorista do carro em não atirá-la ao chão. Foi um gesto de carinho com as belas ruas pelas quais estávamos passando. Um cuidado que nossa cidade merece. Pensei então em nossas ruas em geral e com tristeza lembrei que elas são muito mal cuidadas, tanto pelos governantes quanto pelos moradores. Meus amigos de outros países costumam achar São Paulo um lugar feio e sujo, e eles têm razão. Falta carinho das pessoas pela sua cidade, pelas ruas, pelos prédios… Imagine se os cidadãos parisienses tivessem o hábito de pichar tudo?!

É difícil encontrar o cerne do problema. Talvez seja falta de estrutura, talvez seja a desigualdade social, talvez seja a falta de controle e segurança, talvez seja tudo isso junto. Mas o que falta mesmo, na minha opinião, é amor. É carinho e respeito pela nossa grande casa que é a nossa cidade. A casa que escolhemos para morar.

O brasileiro é carente de nacionalismo e o paulistano é carente de amor pela sua cidade. Sejamos mais românticos! Sigamos o exemplo do carro da casca de banana. Se não for por uma consciência social que seja por uma simples demonstração de amor.

Um sonho na Bela Cintra

Eu adoro as ruas do bairro Jardins. São lindas no fim de tarde, quando gosto de sair com meu cachorro para um passeio. E mais lindas ainda à noite, quando é possível sair a pé em busca de um bom lugar para comer ou simplesmente para sentar-se a conversar com os amigos. Gosto muito de passar por elas admirando a beleza dos seus prédios novos, em contraste com alguns mais antigos, a animação dos restaurantes sempre cheios, dos bares noturnos, as grandes lojas muito bem decoradas e algumas outras pequeninas, mas não com menos charme.

Um dia desses à noite, eu estava voltando da academia, subindo a Rua Bela Cintra, caminhando lentamente e desfrutando o meu passeio. Estava passando pelo trecho que fica entre a Rua Estados Unidos e a Rua Oscar Freire quando presenciei uma cena que não pude deixar de notar.

Um rapaz, maltrapilho e desabrigado, encontrava-se na calçada, em frente a um estabelecimento já fechado. O rapaz estava segurando uma mochila com apenas uma das mãos e fazendo movimentos repetitivos para cima e para baixo, flexionando e estendendo o cotovelo, como se estivesse segurando alteres, aqueles pesos especificamente destinados a exercícios físicos. Eu parei do outro lado da rua e fiquei a observar. Ele repetiu o movimentos algumas vezes, fazendo uma fisionomia que demonstrava um certo esforço, depois largou a mochila no chão e passou a massagear o músculo exercitado com a outra mão,  olhando para o braço como se admirando o seu tônus muscular. Parei de olhar para não chamar a atenção e continuei no meu caminho. Depois de alguns instantes dei uma olhada rápida para trás e percebi que ele repetia o exercício, agora com o outro braço.

Aquela cena ficou em minha cabeça. Primeiro eu achei engraçado. O rapaz era criativo, afinal. Mas depois eu fiquei com aquela sensação que ficamos quando vemos algo errado e não podemos fazer nada para ajudar. Essa sensação é muito frenquente nas ruas de São Paulo. Os moradores de rua são muitos e um indivíduo, sozinho, pouco pode fazer por eles, a menos que procure uma instituição que faça esse tipo de trabalho e junte-se a ela.

Eu pensei comigo: “Esse rapaz não tem nada. Ele não tem onde morar. Ele não tem o que comer. Ele não tem roupas nem calçados decentes. Ele não deve ter família. Ele não tem nada! O que ele está fazendo? Por que importa-se com seu bíceps?” Depois pensei um pouco mais: “Ele tem algo sim! Ele está exercitando-se por algum motivo. Talvez ele queira conquistar aquela menina. Talvez ele tenha visto alguém que despertou a sua admiração e desejou ser como ele. Talvez ele queira competir com seus colegas ou ser mais aceito pelo seu grupo.” Percebi portanto que ele tinha algo muito valioso: um sonho.

Depois continuei a andar pelas ruas até chegar em minha casa. No caminho vi muitos outros rostos e muitos outros pequenos acontecimentos. No entanto, nada mais me chamou a atenção como aquele rapaz. Ninguém tinha nos olhos a esperança e o brilho que havia nos olhos dele. Nessa noite, mesmo que por pouco tempo, ele possuía algo a mais que todos nós. E por isso eu me senti feliz.

Lealdade e fidelidade

Certo dia um amigo me disse que lealdade se refere mais a pensamentos e valores e que a fidelidade se refere mais a atitudes e objetos. Por exemplo, você pode ser leal a uma ideia e pode ser fiel no perfeito cumprimento desta ideia.

Para muitas pessoas e até mesmo em dicionários é difícil separar o significado desses dois termos. Contudo, para mim, com o passar do tempo, essas palavras passaram a significar coisas bem distintas.

A fidelidade é mais comum e mais simples, apesar de muitos falharem na simplicidade. Ser fiel é cumprir os compromissos assumidos. É não distorcer. É ser fidedigno quando citar algo ou alguém. É ser preciso. É ter palavra.

A lealdade, no entanto, é algo muito mais complexo e intrínseco. É algo que não se pode ensinar, pois quem é leal já nasce com essa virtude. Ser leal é ser digno, honesto e sincero com os outros e consigo mesmo. É agir com honra. É ser ético. É defender com sinceridade, mesmo na ausência da pessoa envolvida. É ser nobre em suas atitudes e até mesmo em seus pensamentos.

Com relação aos relacionamentos afetivos ouvimos falar constantemente em fidelidade e raramente em lealdade. Há uma distorção de valores muito visível. Geralmente fala-se da fidelidade simplesmente relacionada ao cumprimento do acordo de monogamia. Mas esse conceito é muito mais abrangente. A infidelidade está presente em todo descumprimento de qualquer acordo feito entre o casal. Como se cada acordo fosse uma cláusula de um contrato e o descumprimento de qualquer cláusula seria um ato infiel. No entanto, se o casal acordar que são permitidas relações extra-conjugais, nesse caso, a tão indesejada “traição” não seria considerada infidelidade.

A lealdade pouco é mencionada com relação aos relacionamentos afetivos e é algo mais difícil de alcançar. Para ser leal, é preciso, por princípio, ser fiel. No entanto, não se cumpre os acordos simplesmente por um compromisso assumido, mas sim pela importância de ser leal àquela pessoa que você considera merecedora da sua lealdade. Você pode ser fiel a contragosto, apenas pelo cumprimento do acordo e para ficar com a “consciência tranquila”, mas é impossível ser leal se essa qualidade não nasceu dentro de você. Para ser fiel é preciso apenas disciplina, por outro lado,  a lealdade nasce de um sentimento de admiração e amor, e é baseada em uma relação de amizade, reciprocidade e cumplicidade.

Poderia perfeitamente ser feliz apenas com a garantia da fidelidade, mas seria uma vida com menos brilho, com aquela incerteza constante de que a qualquer momento a “máscara” pode cair, e então descobriria com tristeza que aquilo que pensei que era amor, nunca existiu. Às juras de fidelidade eterna, prefiro a lealdade sincera, sem promessas, sem hipocrisia. Que seja apenas verdadeiro, e assim o for, certamente será para toda a vida.

Para entender Clarice …

Inquietude

Uma inquietude toma conta de mim. Eu não posso dormir. Uma falta de qualquer coisa, uma ausência calada, um silêncio frustrante em meus ouvidos. Um grito interno que urge para que eu fique acordada. Que eu acorde mais. Que eu enxergue mais. Que eu abra os olhos. Que eu olhe para dentro de mim.

É sempre da noite mais tácita e quieta que nasce a inquietude. Ela vem aos poucos e cresce rápido e irrompe. E eu vejo. O dia agitado esconde toda a verdade. Esconde a realidade distante do invisível.

Quero ver. Quero saber o que se passa lá dentro. Procuro em desespero algo que não sei o que é. Não sei o que quero encontrar. Não sei onde procurar. Lá dentro é tudo grande e confuso como um labirinto. Eu me perco. O fio de Ariadne não vai me ajudar a fugir do ser estranho que habita em mim. Já é tarde demais. Preciso enfrentá-lo.

Preciso mergulhar mais fundo, mas tenho medo. Nunca fui tão para dentro. Tenho medo de não entender. Lá dentro fala-se outras línguas. Várias línguas incompreensíveis e inaudíveis. Não sei decifrá-las. Ninguém sabe.

Fecho os olhos para enxergar mais. Tento parar de pensar. O que procuro não está em meus pensamentos. Quero sentir. Quero apenas sentir. Algo me aperta forte o peito e na garganta sinto um pranto silencioso e aprisionado que ameaça lavar minha face indiferente. É hora de ir para a cama. Finalmente o sono cansado veio me salvar de mim mesma.