Inquietude

Uma inquietude toma conta de mim. Eu não posso dormir. Uma falta de qualquer coisa, uma ausência calada, um silêncio frustrante em meus ouvidos. Um grito interno que urge para que eu fique acordada. Que eu acorde mais. Que eu enxergue mais. Que eu abra os olhos. Que eu olhe para dentro de mim.

É sempre da noite mais tácita e quieta que nasce a inquietude. Ela vem aos poucos e cresce rápido e irrompe. E eu vejo. O dia agitado esconde toda a verdade. Esconde a realidade distante do invisível.

Quero ver. Quero saber o que se passa lá dentro. Procuro em desespero algo que não sei o que é. Não sei o que quero encontrar. Não sei onde procurar. Lá dentro é tudo grande e confuso como um labirinto. Eu me perco. O fio de Ariadne não vai me ajudar a fugir do ser estranho que habita em mim. Já é tarde demais. Preciso enfrentá-lo.

Preciso mergulhar mais fundo, mas tenho medo. Nunca fui tão para dentro. Tenho medo de não entender. Lá dentro fala-se outras línguas. Várias línguas incompreensíveis e inaudíveis. Não sei decifrá-las. Ninguém sabe.

Fecho os olhos para enxergar mais. Tento parar de pensar. O que procuro não está em meus pensamentos. Quero sentir. Quero apenas sentir. Algo me aperta forte o peito e na garganta sinto um pranto silencioso e aprisionado que ameaça lavar minha face indiferente. É hora de ir para a cama. Finalmente o sono cansado veio me salvar de mim mesma.

La poesía

Y FUE a esa edad… Llegó la poesía
a buscarme. No sé, no sé de dónde
salió, de invierno o río.
No sé cómo ni cuándo,
no, no eran voces, no eran
palabras, ni silencio,
pero desde una calle me llamaba,
desde las ramas de la noche,
de pronto entre los otros,
entre fuegos violentos
o regresando solo,
allí estaba sin rostro
y me tocaba.

Yo no sabía qué decir, mi boca
no sabía
nombrar,
mis ojos eran ciegos,
y algo golpeaba en mi alma,
fiebre o alas perdidas,
y me fui haciendo solo,
descifrando
aquella quemadura,
y escribí la primera línea vaga,
vaga, sin cuerpo, pura
tontería,
pura sabiduría
del que no sabe nada,
y vi de pronto
el cielo
desgranado
y abierto,
planetas,
plantaciones palpitantes,
la sombra perforada,
acribillada
por flechas, fuego y flores,
la noche arrolladora, el universo.

Y yo, mínimo ser,
ebrio del gran vacío
constelado,
a semejanza, a imagen
del misterio,
me sentí parte pura
del abismo,
rodé con las estrellas,
mi corazón se desató en el viento.

Pablo Neruda

A bunda, que engraçada

A bunda, que engraçada

Ilustração de Milton DacostaA bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

Carlos Drummond de Andrade

“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.”

Desperdício

Solidão, não te mereço,
pois que te consumo em vão.
Sabendo-te embora o preço,
calco teu ouro no chão.

Drummond